Todos juntos por uma Educação significativa.

domingo, 19 de setembro de 2010

O uso do Computador na Educação: a Informática Educativa

por Sinara Socorro Duarte Rocha*

Nos dias de hoje, tornou-se trivial o comentário de que a tecnologia está presente em todos os lugares, o que certamente seria um exagero. Entretanto, não se pode negar que a informática, de forma mais ou menos agressiva, tem intensificado a sua presença em nossas vidas. Gradualmente, o computador vai tornando-se um aparelho corriqueiro em nosso meio social. Paulatinamente, todas as áreas vão fazendo uso deste instrumento e fatalmente todos terão de aprender a conviver com essas máquinas na vida pessoal assim como também na vida profissional.
Na educação não seria diferente. A manipulação dos computadores, tratamento, armazenamento e processamento dos dados estão relacionados com a idéia de informática. O termo informática vem da aglutinação dos vocábulos infomação + automática. Buscando um sentido léxico, pode-se dizer que Informática é: “conjunto de conhecimentos e técnicas ligadas ao tratamento racional e automático de informação (armazenamento, análise, organização e transmissão), o qual se encontra associado à utilização de computadores e respectivos programas.”(LUFT, 2006:365). Almeida (2000: 79), estudioso do assunto, refere-se ao computador como “uma máquina que possibilita testar idéias ou hipóteses, que levam à criação de um mundo abstrato e simbólico, ao mesmo tempo em que permite introduzir diferentes formas de atuação e interação entre as pessoas.” Sendo, por conseguinte, um equipamento que assume cada vez mais diversas funções. Como ferramenta de trabalho, contribui de forma significativa para uma elevação da produtividade, diminuição de custos e uma otimização da qualidade dos produtos e serviços. Já como ferramenta de entretenimento as suas possibilidades são quase infinitas.
Através da Internet, é possível ignorar o espaço físico, conhecer e conversar com pessoas sem sair de casa, digitar textos com imagens em movimento (gifs), inserir sons, ver fotos, desenhos, ao mesmo tempo em que podemos ouvir música, assistir vídeos, fazer compras, estreitar relacionamentos em comunidades virtuais, participar de bate-papos (chats), consultar o extrato bancário, pagar contas, ler as últimas notícias em tempo real, enfim, trabalho e lazer se confundem no cyberespaço.
Embora seja um instrumento fabuloso devido a sua grande capacidade de armazenamento de dados e a facilidade na sua manipulação não se pode esquecer que este equipamento não foi desenvolvido com fins pedagógicos, e por isso é importante que se lance sobre o mesmo um olhar crítico e se busque, face às teorias e práticas pedagógicas, o bom uso desse recurso. O mesmo só será uma excelente ferramenta, se houver a consciência de que possibilitará mais rapidamente o acesso ao conhecimento e não, somente, utilizado como uma máquina de escrever, de entretenimento, de armazenagem de dados. Urge usá-lo como tecnologia a favor de uma educação mais dinâmica, como auxiliadora de professores e alunos, para uma aprendizagem mais consistente, não perdendo de vista que o computador deve ter um uso adequado e significativo, pois Informática Educativa nada tem a ver com aulas de computação.
Valente (1993: 16) esclarece que “na educação de forma geral, a informática tem sido utilizada tanto para ensinar sobre computação, o chamado computer literacy, como para ensinar praticamente qualquer assunto por intermédio do computador”. Assim, diversas escolas têm introduzido em seu currículo escolar, o ensino da informática com o pretexto da modernidade. Cada vez mais escolas, principalmente as particulares, têm investido em salas de informática, onde geralmente os alunos freqüentam uma vez por semana, acompanhados de um monitor ou na melhor hipótese, de um estagiário de um curso superior ligado à área, proficiente no ensino tecnicista de computação.
Deste modo, ao invés de aprender a utilizar este novo aparato tecnológico em prol de aprendizagem significativa e do acesso universal ao conhecimento, os alunos eram e ainda são “adestrados” no uso da mais nova tecnologia computacional, em aulas descontextualizadas, sem nenhum vínculo com as demais disciplinas e sem nenhuma concepção pedagógica.
Na mesma linha de raciocínio, proliferam em todo país, escolas especializadas no ensino de Informática, na qual o uso da máquina é o principal objeto de estudo, ou seja, o aluno adquire conceitos computacionais, como princípios de funcionamento do computador, noções de hardware e software, além de uso sociais da Tecnologia de Informação e Comunicação – TICs. Entretanto, a maior parte dos cursos oferecidos nessa modalidade podem ser caracterizados como tecnicistas, ou seja, de conscientização do estudante para o uso da informática enquanto técnica, habilitando-o somente para utilizar o equipamento, em nome de uma pseudo-educação profissional que visa somente a formação tecnológica, em detrimento da educação cidadã.
A maioria dos docentes destes cursos, sequer tem formação universitária em Centros de Educação, são inexperientes, tem pouco conhecimento de didática e das teorias pedagógicas, enfim, acabam trazendo para sala de aula, o improviso e as práticas de ensino mecanicistas e repetitivas de cunho tradicionalista sem qualquer preocupação com o desenvolvimento cognitivo de seus alunos. Essa visão de informática pouco altera a realidade educacional, já que traz em seu bojo, um laboratório pouco dinâmico, “engessado” em apostilas estáticas cujas atualizações, quando ocorrem, desvirtuam a verdadeira função social da escola, pois, impossibilitam a construção do conhecimento e a troca de saberes.
A esse respeito, comenta Valente (2003:06) “isto tem contribuído para tornar esta modalidade de utilização do computador extremamente nebulosa, facilitando sua utilização como chamarisco mercadológico”.[1] Certamente esse não é o enfoque da Informática Educativa e, por conseguinte, não é a maneira como a tecnologia deve ser usada no ambiente escolar.
A Informática Educativa se caracteriza pelo uso da informática como suporte ao professor, como um instrumento a mais em sua sala de aula, no qual o professor possa utilizar esses recursos colocados a sua disposição. Nesse nível, o computador é explorado pelo professor especialista em sua potencialidade e capacidade, tornando possível simular, praticar ou vivenciar situações, podendo até sugerir conjecturas abstratas, fundamentais a compreensão de um conhecimento ou modelo de conhecimento que se está construindo. (BORGES, 1999: 136).
A Informática Educativa privilegia a utilização do computador como a ferramenta pedagógica que auxilia no processo de construção do conhecimento. Neste momento, o computador é um meio e não um fim, devendo ser usado considerando o desenvolvimento dos componentes curriculares. Nesse sentido, o computador transforma-se em um poderoso recurso de suporte à aprendizagem, com inúmeras possibilidades pedagógicas, desde que haja uma reformulação no currículo, que se crie novos modelos metodológicos e didáticos, e principalmente que se repense qual o verdadeiro significado da aprendizagem, para que o computador não se torne mais um adereço travestido de modernidade.
Aliás, esta é principal preocupação dos pesquisadores: se a inserção da informática no âmbito escolar de fato traga inovações com benefícios a todos os envolvidos ou se o computador é apenas mais um modismo passageiro, como ocorreu com o Telensino. O Telensino foi uma modalidade de ensino, uma experiência de utilização da tecnologia, em particular da televisão em sala de aula que se iniciou em 1974, mas foi na década de 90 implementada em todo o Estado do Ceará, atingindo cerca de 300.000 alunos. Esta proposta permitiu ampliar o número de matriculas e universalizar o ensino fundamental principalmente em regiões interioranas do Estado. As escolas foram bem equipadas e os professores foram treinados a ser tornarem orientadores de aprendizagem, contudo a falta de assistência técnica, de objetivos claros, de uma metodologia apropriada à realidade local, a falta de material didático (faltavam desde manuais de ensino, fitas cassetes com as aulas, energia elétrica) sem contar o fato do mesmo ter sido implementado de forma unilateral, sem uma reflexão conjunta com professores e alunos, tornou o Telensino uma tentativa fracassada de inserção da tecnologia de informação na sala de aula.
Borges Neto (1999) ao analisar o fenômeno brasileiro de informatização escolar percebeu que a falta de planejamento era a tônica reinante. Segundo o autor, este processo ocorria de forma segmentada, descontextualizada e nuclear, ou seja, adapta-se uma sala para receber os computadores, a famosa sala de informática, contratava-se um especialista (geralmente indicado por um órgão desvinculado da prática educativa), fazia-se um marketing junto à comunidade escolar, e, enfim, reordenava-se a grade curricular para acomodar as aulas de informática. Enquanto que para o professor de sala de aula (polivalente ou hora-aula), tal processo ocorria desapercebidamente, pois continuava dentro da sua triste realidade, turmas superlotadas, alunos desmotivados, falta de material didático, tendo como únicas ferramentas tecnológicas: o quadro negro, o giz, a voz e quando muito, o livro didático.
Segundo Valente (1993: 01) “para a implantação dos recursos tecnológicos de forma eficaz na educação são necessários quatro ingredientes básicos: o computador, o software educativo, o professor capacitado para usar o computador como meio educacional e o aluno”, sendo que nenhum se sobressai ao outro. O autor acentua que, “o computador não é mais o instrumento que ensina o aprendiz, mas a ferramenta com a qual o aluno desenvolve algo e, portanto, o aprendizado ocorre pelo fato de estar executando uma tarefa por intermédio do computador” (p.13).
Quando o próprio aluno cria, faz, age sobre o software, decidindo o que melhor solucionaria seu problema, torna-se um sujeito ativo de sua aprendizagem O computador ao ser manipulado pelo indivíduo permite a construção e reconstrução do conhecimento, tornando a aprendizagem uma descoberta.. Quando a informática é utilizada a serviço da educação emancipadora, o aluno ganha em qualidade de ensino e aprendizagem.
A mudança da função do computador como meio educacional acontece juntamente com um questionamento da função da escola e do papel do professor. A verdadeira função do aparato educacional não deve ser a de ensinar, mas sim a de criar condições de aprendizagem. Isso significa que o professor precisa deixar de ser o repassador de conhecimento – o computador pode fazer isso e o faz tão eficiente quanto professor – e passar a ser o criador de ambientes de aprendizagem e o facilitador do processo de desenvolvimento intelectual do aluno. (VALENTE, 1993: 06).
A chegada das tecnologias no ambiente escolar provoca uma mudança de paradigmas. A Informática Educativa nos oferece uma vastidão de recursos que, se bem aproveitados, nos dão suporte para o desenvolvimento de diversas atividades com os alunos. Todavia, a escola contemporânea continua muito arraigada ao padrão jesuítico, no qual o professor fala, o aluno escuta, o professor manda, o aluno obedece. A chegada da era digital coloca a figura do professor como um “mediador” de processos que são, estes sim, capitaneados pelo próprio sujeito aprendiz. Porém, para que isso ocorra de fato, é preciso que o professor não tenha “medo” da possibilidade de autonomia do aluno, pois muitos acreditam que com o computador em sala de aula, o professor pede o seu lugar.
Pelo contrário, as máquinas nunca substituirão o professor, desde que ele re-signifique seu papel e sua identidade a partir da utilização das novas abordagens pedagógicas que as tecnologias facilitam. A adoção das TICs em sala de aula traz para os educandos, muitos caminhos a percorrer e para isso é preciso a presença do professor, pois é ele quem vai dinamizar todo este novo processo de ensino-aprendizagem por intermédio dessa ferramenta, explorando-a ao máximo com criatividade, conseguindo o intuito maior da Informática Educativa: mudança, dinamização, envolvimento, por parte do aluno na aprendizagem. Entre as vantagens potenciais desta modalidade na escola, está o fato desta:
(...) a) ser ‘sinônimo’ de status social, visto que seu usuário, geralmente crianças e adolescentes, experimentam a inversão da relação de poder do conhecimento que consideram ser propriedade dos pais e professores, quando estes não dominam a Informática; b) possibilitar resposta imediata, o erro pode produzir resultados interessantes; c) não ter o erro como fracasso e sim, um elemento para exigir reflexão/busca de outro caminho. Além disso, o computador não é um instrumento autônomo, não faz nada sozinho, precisa de comandos para poder funcionar, desenvolvendo o poder de decisão, iniciativa e autonomia; d) Favorece a flexibilidade do pensamento; e) estimula o desenvolvimento do raciocínio lógico, pois diante de uma situação-problema é necessário que o aluno analise os dados apresentados, descubra o que deve ser feito, levante hipóteses, estabeleça estratégias, selecione dados para a solução, busque diferentes caminhos para seguir; f) Possibilita ainda o desenvolvimento do foco de atenção-concentração; g) favorece a expressão emocional, o prazer com o sucesso e é um espaço onde a criança/jovem pode demonstrar suas frustrações, raiva, projeta suas emoções na escolha de produção de textos ou desenhos. (FERREIRA, 2002:29)
A utilização da Informática Educativa pode juntar elementos da educação formal com outros da não formal, beneficiando tanto o aspecto prático dos meios não formais quanto a teoria mais generalizada presente nos meios acadêmicos. Por intermédio de sites na Internet, por exemplo, pode trazer para dentro da sala de aula, filmes ilustrando a vida de grandes vultos do passado, ou documentários detalhando as etapas no desenvolvimento de seres vivos, dentre outros.
A Internet possibilita um intercâmbio entre localidades distantes, gerando trocas de experiências e contato com pessoas de outros países. Essas “pontes” que hoje existem entre diferentes mundos representam o único meio de acesso para quem não vive perto dos grandes centros urbanos. Somente nas grandes cidades pode-se conviver diretamente com a informação, ou seja, uma fatia minoritária de pessoas tem acesso à educação de qualidade, pois tem acesso à universidade, bibliotecas, laboratórios, teatros, cinemas, museus, centros culturais etc. É necessário, deste modo, democratizar o acesso ao conhecimento, às tecnologias da informação e da comunicação, seja para a formação continuada dos professores, seja para o enriquecimento da atividade presencial de mestres e alunos.
A democratização do acesso a esses produtos tecnológicos é talvez o maior desafio para esta sociedade demandando esforços e mudanças nas esferas econômica e educacional. Para que todos possam ter informações e utilizar-se de modo confortável as novas tecnologias, é preciso um grande esforço político. Como as tecnologias estão permanentemente em mudança, a aprendizagem contínua é conseqüência natural do momento social e tecnológico que vivemos, a ponto de podermos chamar nossa de sociedade de “sociedade de aprendizagem”. Todavia, a utilização de ferramentas computacionais em sala de aula, ainda parece ser um desafio para alguns professores que se sentem inseguros em conciliar os conteúdos acadêmicos com instrumentos e ambientes multimídia, os quais ainda não têm pleno domínio.
Certamente, o papel do professor está mudando, seu maior desafio é reaprender a aprender. Compreender que não é mais a única fonte de informação, o transmissor do conhecimento, aquele que ensina, mas aquele que faz aprender, tornando-se um mediador entre o conhecimento e a realidade, um especialista no processo de aprendizagem, em prol de uma educação que priorize não apenas o domínio dos conteúdos, mas o desenvolvimento de habilidades, competências, inteligências, atitudes e valores.
A utilização das TICs no ambiente escolar contribui para essa mudança de paradigmas, sobretudo, para o aumento da motivação em aprender, pois as ferramentas de informática exercem um fascínio em nossos alunos. Se a tecnologia for utilizada de forma adequada, tem muito a nos oferecer, a aprendizagem se tornará mais fácil e prazerosa, pois “as possibilidade de uso do computador como ferramenta educacional está crescendo e os limites dessa expansão são desconhecidos” (VALENTE, 1993: 01).
Compete ao professor e aluno explorarem ao máximo todos os recursos que a tecnologia nos apresenta, de forma a colaborar mais e mais com a aquisição de conhecimento. Ressalta-se ainda que o educando é antes de tudo, o fim, para quem se aplica o desenvolvimento das práticas educativas, levando-o a se inteirar e construir seu conhecimento, por intermédio da interatividade com o ambiente de aprendizado.
É papel da escola democratizar o acesso ao computador, promovendo a inclusão sócio-digital de nossos alunos. É preciso também que os dirigentes discutam e compreendam as possibilidades pedagógicas deste valioso recurso. Contudo, é preciso estar conscientes de que não é somente a introdução da tecnologia em sala de aula, que trará mudanças na aprendizagem dos alunos, o computador não é uma “panacéia” para todos os problemas educacionais.
As ferramentas computacionais, especialmente a Internet, podem ser um recurso rico em possibilidades que contribuam com a melhoria do nível de aprendizagem, desde que haja uma reformulação no currículo, que se crie novos modelos metodológicos, que se repense qual o significado da aprendizagem. Uma aprendizagem onde haja espaço para que se promova a construção do conhecimento. Conhecimento, não como algo que se recebe, mas concebido como relação, ou produto da relação entre o sujeito e seu conhecimento. Onde esse sujeito descobre, constrói e modifica, de forma criativa seu próprio conhecimento.
O grande desafio da atualidade consiste em trazer essa nova realidade para dentro da sala de aula, o que implica em mudar, de maneira significativa, o processo educacional como um todo.

Referências
ALMEIDA, M E de. Informática e formação de professores. Brasília: Ministério da Educação, 2000.
BORGES NETO, H. Uma classificação sobre a utilização do computador pela escola. Revista Educação em Debate, ano 21, v. 1, n. 27, p. 135-138, Fortaleza, 1999.
FERREIRA, A. L. D. Informática educativa na educação infantil: Riscos e Benefícios. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará-UFC, 2000. Monografia (Especialização em Informática Educativa)..
LUFT, C.P Dicionário Luft. São Paulo: Atica, 2006.
VALENTE, J. A. Computadores e conhecimento: repensando a educação. Campinas: UNICAMP. 1993.

* Especialista em Informática Educativa e Mídias em Educação (UFC) Atualmente é professor efetivo da Prefeitura Municipal de Fortaleza, com experiência na área de Educação Infantil e gestão do LIE - Laboratório de Informática Educativa[1] Chamarisco mercadológico. É a utilização da informática apenas como forma de atrair os alunos para a escola sem nenhuma concepção pedagógica, apenas como ferramenta de Marketing.


Uso pedagógico de mídias na escola: práticas inovadoras

Educar é colaborar para que professores e alunos - nas escolas e organizações - transformem suas vidas em processos permanentes de aprendizagem. É ajudar os alunos na construção da sua identidade, do seu caminho pessoal e profissional - do seu projeto de vida, no desenvolvimento das habilidades de compreensão, emoção e comunicação que lhes permitam encontrar seus espaços pessoais, sociais e profissionais e tornar-se cidadãos realizados e produtivos.
Na sociedade da informação todos estamos reaprendendo a conhecer, a comunicar-nos, a ensinar e a aprender; a integrar o humano e o tecnológico; a integrar o individual, o grupal e o social.

Uma mudança qualitativa no processo de ensino/aprendizagem acontece quando conseguimos integrar dentro de uma visão inovadora todas as tecnologias: as telemáticas, as audiovisuais, as textuais, as orais, musicais, lúdicas e corpoais.
Passamos muito rapidamente do livro para a televisão e vídeo e destes para o computador e a Internet, sem aprender e explorar todas as possibilidades de cada meio.

Autor: José Manuel Moran 15/08/10

Vídeos são instrumentos de comunicação e de produção

José Manuel Moran: Entrevista publicada no Portal do Professor do MEC em 06.03.2009

Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), José Manuel Moran é assessor da Faculdade Sumaré, em São Paulo e professor aposentado da USP. Nascido na Espanha e naturalizado brasileiro, Moran é um estudioso das formas de integração entre as tecnologias de comunicação, especialmente a internet, na educação presencial e a distância, dentro de uma visão humanista e inovadora. Tem vários artigos e livros publicados sobre comunicação pessoal, educação e tecnologias, onde procura integrar a visão humanista com a inovação tecnológica. Como ver televisão (1991) e Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica (2000) são algumas de suas obras. Nas décadas de 70 e 80 participou do Projeto Leitura Crítica da Comunicação, da União Cristã Brasileira de Comunicação Social (UCBC), que orientava pais e professores não só a analisar os meios de comunicação, principalmente a televisão e o jornal, como também a integrá-los como tecnologias e mídias na educação.

Jornal do Professor (JP)- De que maneira os vídeos podem facilitar o processo de ensino e aprendizagem?
José Manuel Moran - As linguagens da TV e do vídeo respondem à sensibilidade dos jovens e da grande maioria da população adulta. São dinâmicas, dirigem-se antes à afetividade do que à razão. As crianças e os jovens lêem o que pode visualizar, precisam ver para compreender. Toda a sua fala é mais sensorial-visual do que racional e abstrata. Lêem nas diversas telas que utilizam: da TV, do DVD, do celular, do computador, dos games. Os vídeos facilitam a motivação, o interesse por assuntos novos. Os vídeos são dinâmicos, contam histórias, mostram e impactam. Facilitam o caminho para níveis de compreensão mais complexos, mais abstratos, com menos apoio sensorial como os textos filosóficos, os textos reflexivos. Os vídeos também são um grande instrumento de comunicação e de produção. Os alunos podem criar facilmente vídeos a partir do celular, do computador, das câmaras digitais e divulgá-los imediatamente em blogs, páginas web, portais de vídeos como o YouTube.
Os computadores e celulares deixaram de ser apenas ferramentas de recepção. Hoje, são também de produção. Uma criança pode tirar fotos ou fazer vídeos com um celular e publicá-los na internet. Professores e alunos podem ter acesso a inúmeros vídeos prontos e assisti-los no momento ou salvá-los para exibição posterior. Ao mesmo tempo, todos podem editar, produzir e divulgar novos conteúdos a partir do computador ou do celular. Entramos numa nova era da mobilidade e da integração das tecnologias, como nunca antes foi possível.
JP - Como os vídeos podem ser utilizados em sala de aula?
JMM - Os vídeos podem ser utilizados em todas as etapas do processo de ensino e aprendizagem. Os principais usos são:
Para motivar, sensibilizar os alunos – É, do meu ponto de vista, o uso mais importante na escola. Um bom vídeo é interessantíssimo para introduzir um novo assunto, para despertar a curiosidade, a motivação para novos temas. Isso facilitará o desejo de pesquisa nos alunos para aprofundar o assunto do vídeo e da matéria.
Para ilustrar, contar, mostrar, tornar próximos temas complicados – O vídeo pode ajudar a tornar mais próximo um assunto difícil, a ilustrar um tema abstrato, a visibilizar cenários de lugares, eventos, distantes do cotidiano. Hoje, é muito mais fácil do que antes encontrar e visualizar vídeos sobre qualquer assunto importante na internet, em portais como o YouTube, por exemplo.
Como vídeo-aulas – Alguns vídeos trazem assuntos já preparados para os alunos, já estão organizados como conteúdos didáticos. Utilizam técnicas interessantes de manter o interesse, como dramatizações, depoimentos, cenas de filmes, jogos, tempo para atividades. Podem ser adequados para que o professor não tenha que explicar determinados assuntos. O professor age a partir do vídeo, com questionamentos, problematização, discussão, elaboração de síntese, formas de aplicação no dia-a-dia. Esses vídeos podem ser disponibilizados no portal da escola e os alunos podem acessá-los fora da sala de aula também.
Vídeo como produção individual ou coletiva – As crianças adoram fazer vídeo e a escola precisa incentivar o máximo possível a produção de pesquisas em vídeo pelos alunos. A produção em vídeo tem uma dimensão moderna, lúdica. Moderna, como um meio contemporâneo, novo e que integra linguagens. Lúdica, pela miniaturização das câmaras, que permite brincar com a realidade, levá-las junto para qualquer lugar. Filmar é uma das experiências mais envolventes tanto para as crianças como para os adultos. Os alunos podem ser incentivados a produzir dentro de uma determinada matéria, ou dentro de um trabalho interdisciplinar. E também produzir programas informativos, feitos por eles mesmos e colocá-los em lugares visíveis dentro da escola e em horários onde muitas crianças possam assisti-los e também na página web da escola ou em blogs ou portais da internet.
O vídeo também é importante para documentação, registro de eventos, de aulas, de estudo do meio, de experiências, de entrevistas, depoimentos. Isto facilita o trabalho do professor, dos alunos e da comunidade. Esse material pode ser divulgado, quando conveniente, na internet.
O vídeo também pode ser útil para avaliação, principalmente as que mostram situações complexas, estudos de caso, projetos, sozinho ou com textos relacionados.
JP - Que tipo de atividade deve ser evitada quando se está trabalhando com vídeos nas escolas? Que tipo de atividade é mais adequada?
JMM - Algumas formas inadequadas de utilização do vídeo:
Vídeo-tapa buraco: colocar vídeo quando há um problema inesperado, como ausência do professor. Usar este expediente eventualmente pode ser útil, mas se for feito com frequência, desvaloriza o uso do vídeo e o associa - na cabeça do aluno - a não ter aula.
Vídeo-enrolação: exibir um vídeo sem muita ligação com a matéria. O aluno percebe que o vídeo é usado como forma de camuflar a aula. Pode concordar na hora, mas percebe o mau uso.
Vídeo-deslumbramento: O professor que acaba de descobrir a facilidades de baixar vídeos da Internet costuma empolgar-se e exibi-los em todas as aulas, esquecendo outras dinâmicas mais pertinentes. O uso exagerado do vídeo diminui a sua eficácia e empobrece as aulas.
Vídeo-perfeição: Existem professores que questionam todos os vídeos possíveis porque possuem erros de informação ou estéticos (qualidade). Os vídeos que apresentam conceitos problemáticos podem ser usados para uma análise mais aprofundada a partir da sua descoberta, problematizando-os.
Só exibição: não é satisfatório, didaticamente, exibir os vídeos sem discuti-los, sem integrá-lo com os assuntos das aulas, sem rever alguns momentos mais importantes.
Algumas atividades mais adequadas são: introduzir um assunto, complementar informações; provocar discussões, trabalhos de grupo para discussão, debates; levantamento de sugestões do grupo, estudo dirigido para verificação da compreensão e da habilidade de transferir conhecimentos recebidos para novas situações (projetos); alunos protagonistas, fazendo trabalhos em vídeo, apresentando-os para a classe e divulgando-os na página web da escola.
JP - Quais os benefícios que a produção de vídeos pode trazer para os alunos?
JMM – Maior interesse dos alunos (linguagem familiar); aulas mais atraentes, pois os vídeos estimulam a participação e as discussões; alunos desenvolvem mais a criatividade, sua comunicação audiovisual e a interação com outros colegas e outras escolas; melhor fixação dos assuntos principais pelos alunos (visão mais concreta sobre eles), já que os vídeos trazem a realidade para a sala de aula e para a aprendizagem significativa; complementação das discussões do material impresso.
Mas nem tudo são benefícios. Os professores, apesar de reconhecer muitas vantagens no uso do vídeo, utilizam-no realmente pouco. A maior parte só trabalha com o vídeo na sala de aula esporadicamente, não habitualmente. Há dificuldades materiais, e principalmente, dificuldades em ter o material adequado para o programa da matéria. A maior parte dos professores não conhece os vídeos que existem na sua área, quais são bons e, os poucos que eles conhecem, nem sempre estão disponíveis, por razões econômicas. Percebe-se, ainda, uma grande desinformação no uso do vídeo, não só tecnicamente, mas principalmente didaticamente.
JP - Quais dicas o senhor daria para professores que nunca trabalharam com produção de vídeos antes? O que deve ser observado mais atentamente pelos professores?
JMM - Que observem e aprendam com seus alunos. Os mais novos têm uma facilidade no manuseio de muitas telas (da TV, do celular, do computador, dos videojogos, das câmaras digitais). É importante aprender com eles e, ao mesmo tempo, fazer algum curso que inclua aspectos técnicos e pedagógicos. Um dos esquemas básicos de organização da produção de um vídeo um pouco mais complexo, costuma ter os seguintes passos:
Idéia: a idéia ou o tema principal que move a produção de um vídeo; Elaboração do roteiro: momento em que a idéia toma forma propriamente dita. Nesta etapa definem-se os personagens, os estilos de filmagem, e o que se pretende, de fato, passar para o público com a obra;
Plano de filmagem: nesta parte acontece a elaboração de uma planilha, onde são especificados todos os locais de filmagem, bem como suas datas, horários, diálogos, personagens, figurino, cenário, tempo de cada cena, etc.
Captura das imagens: filmagem propriamente dita;
Decupagem das imagens: nesta etapa, os alunos assistem ao material gravado, selecionando o que é útil para a finalização da obra;
Pré-edição: as imagens são transferidas para o computador e ordenadas em pastas e sub-pastas;
Edição: montagem das imagens no computador, aplicação de efeitos, inserção de trilha sonora, de legendas ou frases de texto etc;
Finalização: gravação em mídia DVD, disponibilização em um portal da escola ou em um portal de vídeos.
JP - É necessário ter uma ilha de edição de imagens? Quais os equipamentos necessários para produzir um vídeo simples?
JMM - Para começar não é necessário um equipamento sofisticado. Há programas de edição de imagens, alguns mais simples e baratos e outros mais sofisticados e caros. O mais simples vem com o Windows XP ou Vista: é o movie maker. Permite alterar o filme da forma que cada um quiser, com um clique na opção linha do tempo. Hoje, algumas câmaras digitais já permitem fazer edição de fotos ou vídeos nelas mesmas.
Tendo idéias e motivação facilmente se encontram as soluções técnicas mais adequadas para cada situação. O professor pode pedir aos alunos que encontrem as melhores soluções técnicas de edição.
Com as tecnologias digitais móveis, o avanço na conexão em redes, a WEB 2.0 com tantos recursos gratuitos colaborativos, há inúmeras soluções simples de acessar vídeos, de produzir vídeos, de editar vídeos e de publicar vídeos.

(Renata Chamarelli e Fátima Schenini)

Mídia, Educação e Democracia


Entrevista com o professor Robert Ferguson
Instituto de Educação - Universidade de Londres
"Não ensinar sobre as mídias é tão crítico quanto não ensinar sobre a gravidade: ambas interferem em nossas vidas a cada passo que damos."
Robert Ferguson

1. Dada a relativa falta de difusão do conceito no Brasil, vamos diretamente à questão que mais nos aflige: afinal, o que é Media Education e qual sua finalidade?
As mídias estão por toda a parte. A onipresença das mídias é uma das razões por causa das quais precisam ser estudadas na escola. Não ensinar sobre as mídias é tão crítico quando não ensinar sobre a gravidade: ambas interferem em nossas vidas a cada passo que damos. As mídias nos trazem informações sobre o mundo, sobre relações sociais, sobre política, religião, cultura, sobre o que comprar, sobre o que é bom e normal, sobre o que é ruim e desviante.Sendo tão prevalentes, não é de estranhar que a maior parte do conhecimento que temos sobre o mundo é mediado. E esta mediação está progressivamente ligada às novas tecnologias de comunicação. John Fiske, um escritor prolífico e pesquisador nesta área argumenta que:
"O conhecimento é uma produção da mediatech, e aqueles que são mídia-analfabetos e tecnófobos serão cortados de sua produção, de sua circulação e das lutas em torno de seu controle. Numa cultura mediada massivamente, eles estão marginalizados e suas vozes clamando pela perda da capacidade de leitura fica cada dia mais fraca". Friske destaca a importância desse novo tipo de alfabetização: a alfabetização para as mídias (media literacy). Isso é cada vez mais importante, pois os conceitos tradicionais de alfabetização estão sendo desafiados pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, em especial nessa de meios digitais e interativos.

2. O senhor diz no final do artigo que traduzimos para este número de nossa revista, que a media education é "sobre formular questões". Você pode falar um pouco mais sobre isso?
A formulação de questões, da mais básica à mais sofisticada, é parte de todo trabalho acadêmico sério. É também uma maneira de clarificar questões que estejam sob investigação. Formular questões é igualmente um modo codificado de nos lembrar que geralmente existe mais de uma resposta - e que nossa tarefa é descobri-las.

3. De que tipo de mídia estamos falando quando dizemos Media Education? Trata-se só de televisão, rádio, cinema, imprensa, enfim, de meios de comunicação de massa, ou já está abordando as novas mídias digitais interativas? Aproveitando a questão, como o referencial teórico-conceitual da Media Education, construído a partir dos meios massivos e lineares, está se adaptando à New Media?
É claro que se a media education ficasse restrita aos meios de comunicação de massa tal eram definidos nos anos 70, estaria completamente fora da realidade a qual pretende se referir. A importância das novas mídias interativas, principalmente da internet, e da globalização das telecomunicações, com o conseqüente ampliação do acesso à informação não pode ser subestimada ou deixada para estudar amanhã. Por outro lado, muito do que vemos nessas novas mídias mantém uma ligação muito direta com as formas comunicativas empregadas pelos meios "anteriores", sendo essencialmente formas audio-visuais, utilizando representações compostas de sons, imagens e textos. Assim a media education não somente incorpora os novos meios como temas de estudo, mas traz uma contribuição importante e indispensável para a análise e para a contextualização das novas tecnologias e meios de comunicação. Seu referencial teórico - que está longe de ser homogêneo e unificado - precisa passar por uma permanente crítica, visando sua adequação à realidade, que por sua vez também está em constante transformação. Esta é uma condição do pensamento científico (eu prefiro dizer pensamento crítico) e na media education não é diferente.

4. O senhor parece propor uma abordagem extremamente politizada para os estudos de mídia. De que forma podemos evitar cair na pregação partidária ou ideológica ao buscar fazer a crítica desses meios?
Muitos pesquisadores aprenderam muito sobre as estruturas de poder nas mídias a partir dos estudos de Michel Foucault. Este autor chamou nossa atenção para as microestruturas do poder, para as formas pelas quais os diversos poderes se difundem e se cristalizam na vida cotidiana. Outros pesquisadores, mais envolvidos com o estudo das mídias, olharam paras as maneiras através das quais o poder é efetivamente exercido nas e pelas mídias, em especial nos grandes canais de massa. Eu cito no meu artigo três aspectos de interesse direto do media educator ao lidar com questões de poder nas mídias: as formas pelas quais elas estabelecem a nossa agenda de conversas e discussões (agenda setting), os modos pelos quais elas definem o que é importante e o que não é, e as maneiras pelas quais elas constituem o conceito de normalidade - e o de desvio, por conseqüência. Outros autores sugerem que o poder das mídias não é meramente imposto, mas que evolui através do diálogo e da negociação. Gramsci falava no processo de hegemonia. Por ora, é importante observar que o exercício do poder através das mídias não é um acontecimento mecânico e direto. É algo muito mais dinâmico e difuso, até contraditório. Isto torna essa questão tanto um campo de grande interesse quanto um assunto muito difícil de abordar rapidamente.
De qualquer maneira, se quisermos que a media education tenha realmente alguma relevância para a escola e para a vida dos estudantes, temos de abordar a questão do poder, que está diretamente ligada à questão da democracia - e de uma forma que permita não só o pensamento crítico mas também a prática democrática na condução dos próprios estudos sobre as mídias.

5. Não corremos o risco de cair numa postura paternalista, procurando adestrar os alunos para que gostem de textos midiáticos dos quais nós, como professores, gostamos - e arremessando para a lata de lixo tudo aquilo de que os alunos, como jovens vivendo numa cultura de massa, gostam? Isso não pode levar a um distanciamento ainda maior entre professor e aluno, entre a cultura e a ciência acadêmica e a cultura dos jovens?
Paternalismo pode ser um rótulo muito abrangente para designar muitas propostas de estudo das mídias que são baseadas numa superioridade por parte do pesquisador professor, mesmo quando colocada de forma mais amena, como "é assim que me parece; o que vocês pensam a respeito" Escritores, de Adorno nos anos 40 a Postman nos 80, fizeram pronunciamentos sobre as mídias, geralmente com uma tonalidade apocalíptica. Recentemente vozes mais moralísticas têm se juntado a muitos autores na sua indignação contra o conteúdo das mídias. O título do livro mais influente de M. Medved carrega claramente conotações ideológicas: "Hollywood versus América: a cultura popular e a guerra contra os valores tradicionais". Há moralistas que parecem ser mais facilmente ofendidos por termos de baixo calão do que pela cobertura ao vivo da guerra na televisão. A velha postura prescritiva ou moralizadora tem levado, sim, a uma ampliação do distanciamento entre este professor e seus estudantes. Há uma tendência, por parte de muitos professores, de confundir a função de ensinar com a de pregar, transformando sua mesa em púlpito ou em palanque, a partir do qual derrama suas palavras iluminadoras sobre os alunos, pensando que assim os mudará.

6. Douglas Rushkoff diz em seu livro "Um jogo chamado futuro" que se nós não percebermos que temos de nos interessar pelos jovens não apenas porque são jovens (isto é, nós próprios, com menos idade) mas principalmente porque são novos. Se não encontrarmos um território comum para estalecer um diálogo, logo sermos, nas palavras de Rushkoff, "estrangeiros em nosso próprio país". O senhor concorda?
É a isso que eu me referi quando disse que muitos professores adotam uma postura prescritiva. Em nome de valores mais elevados, eles procuram prescrever aos alunos uma receita de bom-gosto. Ainda que estes valores não estivessem em discussão, o resultado educacional dessa atitude é pequeno. No final de muitas aulas-sermão sobre as maravilhas da música clássica em comparação com o lixo pop, os alunos chegam à seguinte conclusão: "existem dois tipos de pessoas no mundo - aquelas que, como o professor, gostam de Bach e Beethoven, e aquelas que, como nós, gostam de Guns'n'Roses e Oasis". Mesmo que sejam agora capazes de apreciar um pouco mais sinfonias e música de câmera, os alunos reforçam ainda mais as fronteiras que separam de nós as novas gerações. Nossa busca, como educadores, é reduzir essa distância, encontrando territórios comuns - como você disse na sua pergunta - e não impondo valores exteriores a eles. Acredito que a media education pode ser um ótimo caminho para encontrarmos – ou construirmos - esse território comum, no qual trocas verdadeiramente significativas possam ocorrer entre todos os agentes da aprendizagem, sem paternalismo ou autoritarismo.

7. Voltando à nossa indagação inicial, como poderíamos definir a media education? É uma "disciplina", um campo de estudos ou é uma prática formativa? Em outras palavras: a media education pode reivindicar uma singularidade em termos de metodologia ou de objeto, que a situe no universo acadêmico?
Essa não deve ser uma preocupação fundamental daqueles que estão de fato envolvidos com a media education. Torná-la uma disciplina acadêmica por força de normas e decretos não fará com que se consolide como uma prática e como um caminho para o pensamento crítico e fundamentado sobre as mídias e sua relação com a vida individual e coletiva. A media education é necessariamente interdisciplinar (ou transdisciplinar, se preferirmos) e desse modo pode se basear em múltiplas metodologias para enfocar seus múltiplos objetos - que são dinâmicos e mutantes, como é a vida social. Trata-se muito mais de reconhecermos que não estudar as mídias seria um sinal de que a educação estaria vivendo (como afirmam muitos de seus críticos) em um mundo à parte, separado do mundo real, no qual as mídias desempenham um papel essencial. A media education é somente um dos caminhos para aproximarmos a educação da vida.
Educar é colaborar para que professores e alunos - nas escolas e organizações - transformem suas vidas em processos permanentes de aprendizagem. É ajudar os alunos na construção da sua identidade, do seu caminho pessoal e profissional - do seu projeto de vida, no desenvolvimento das habilidades de compreensão, emoção e comunicação que lhes permitam encontrar seus espaços pessoais, sociais e profissionais e tornar-se cidadãos realizados e produtivos.

Entrevista realizada pela internet, em várias ocasiões entre os dias 5 e 28 de janeiro de 2002. Conduzida etraduzida por Antonio Simão

1. Introdução
A presença das tecnologias, principalmente do computador nas escolas, tem levado as instituições de ensino e os professores a adotarem novas posturas frente ao processo de ensino e de aprendizagem.
Levy (1995) afirma que a informática é um campo de novas tecnologias intelectuais, aberto, conflituoso e, parcialmente, indeterminado. Nesse contexto, a questão do uso desses recursos, particularmente na educação, ocupa posição central e, por isso, é importante refletir sobre as mudanças educacionais provocadas por essas tecnologias, propondo novas práticas docentes e buscando proporcionar experiências de aprendizagem significativas para os alunos.
Atenta a isso, a educação atual enfrenta um grande desafio: o de constituir-se em espaço de mediação entre a criança e esse ambiente povoado de máquinas que lidam com a mente e o imaginário. Cabe à escola não só assegurar a democratização do acesso aos meios técnicos de comunicação mais sofisticados, mas ir além e estimular, dar condições, preparar as novas gerações para a apropriação ativa e crítica dessas novas tecnologias.
Segundo Valente (1999), o uso do computador na educação objetiva a integração do educador no processo de aprendizagem dos conceitos curriculares em todas as modalidades e níveis de ensino, podendo desempenhar papel de facilitador entre o aluno e a construção do seu conhecimento. O autor defende a necessidade de o professor da disciplina curricular atentar para os potenciais do computador e ser capaz de alternar adequadamente atividades não informatizadas de ensino-aprendizagem e outras passíveis de realização via computador. Ele enfatiza, também, a necessidade de os docentes estarem preparados para realizar atividades computadorizadas com seus alunos, tendo em vista a necessidade de: determinar as estratégias de ensino que utilizarão, conhecer as restrições que o software apresenta e ter bem claros os objetivos a serem alcançados com as tarefas a serem executadas.
Observamos que apesar do grande número de estudos que vêm sendo desenvolvidos sobre o uso das tecnologias, ainda há uma grande resistência por parte dos professores no seu uso em sala de aula. Disso decorrem os seguintes questionamentos: Quais os obstáculos que geram a resistência ao uso dos recursos computacionais por parte dos professores nas escolas? Como o uso de tecnologias interfere no processo ensino-aprendizagem dos alunos?
Segundo Paulo Freire (2005), a educação sozinha não transforma o mundo, mas transforma as pessoas e, essas sim, transformam o mundo. A necessidade de formar professores autônomos comprometidos, que insiram em sua prática docente a busca constante de informação e atualização profissional para realizar um bom trabalho, é urgente.
2. Desenvolvimento
Considerando a crescente importância do fenômeno tecnológico na sociedade atual, globalizada e tecnificada, a educação é chamada a constituir-se em meio às novas tecnologias de comunicação e de informatização. No entanto, faz-se necessário delinear alguns caminhos para a formação de professores nessa perspectiva inovadora, indispensável para a melhoria da qualidade da escola do presente e do futuro. Acreditamos que isso só será possível se cada vez mais educadores tiverem a oportunidade de preparar-se para o uso das mídias na educação.
Sendo função da educação formar cidadãos livres e autônomos, sujeitos do processo educacional: professores e estudantes identificados com seu novo papel de pesquisadores, num mundo cada vez mais informacional e informatizado, a escola só terá qualidade se integrar as novas tecnologias de comunicação de modo eficiente e crítico. Isso só será possível se a escola mostrar-se capaz de colocar as tecnologias a serviço do sujeito da educação - o cidadão livre, perpassando obrigatoriamente pela atuação do educador.
Entretanto, podemos afirmar que as novas tecnologias têm encontrado alguma dificuldade em assumir um lugar de relevo na escola, principalmente no que se refere ao papel do professor nessa tarefa.
Nesse sentido, Ponte (1990) argumenta que o interesse dos professores em utilizar o computador de modo sensível, aprender coisas novas, assumir novos papéis na sala de aula e estabelecer novas relações com os alunos, cria um ambiente geral estimulante para uma reflexão geral sobre o ensino e, eventualmente, possíveis mudanças de concepções. A reflexão é, assim, encarada como um importante fator de mudança a ser vista como prática social a desenvolver-se num contexto colaborativo.
No entanto, isso só será possível se a frequência de ações de formação for um dos suportes para o desenvolvimento das competências dos professores relativamente às novas tecnologias e ao seu uso na prática pedagógica. Os especialistas no assunto colocam a tônica das atividades de formação dos professores relativamente às novas tecnologias no aprofundamento e apoio ao seu trabalho, não só no aspecto técnico como no pedagógico, em que inclui a observação de usos bem sucedidos da tecnologia na sala de aula, a comunicação permanente com outros professores que defrontam desafios semelhantes e a consulta a especialistas.
Temos percebido que a sociedade de informação coloca novos desafios a todos os cidadãos como aprender a aprender, informar-se, comunicar, raciocinar, comparar, decidir, cooperar. Estes desafios exigem uma resposta por parte da escola. A renovação e modernização do ensino é uma questão na ordem do dia, tanto nacional como internacionalmente. Assim, o uso da tecnologia no ensino questiona a capacidade do professor para conseguir definir, não só como e quando usar a tecnologia, mas também, o porquê e para quê. O seu uso educativo ganhará sentido e consistência à medida que o professor se questionar e questionar os outros, se informar e comunicar com os outros, se flexibilizar e personalizar as suas atividades com as tecnologias. A formação contínua em novas tecnologias deve dar especial atenção a estas problemáticas e contribuir, desse modo, para que o professor assuma novas atitudes e compromissos na sala de aula.
3. Conclusão
Diante disso, surgem novas questões que se afiguram importantes para investigação futura. Por exemplo, como preparar o professor para desenvolver tais habilidades em seus alunos através das tecnologias? Como favorecer o entrosamento da formação em novas tecnologias com a prática profissional? Qual tem sido efetivamente a utilização das tecnologias nas escolas? Quantos professores têm formação especializada em Tecnologias? Qual tem sido o interesse demonstrado pelos professores em realizar um curso de capacitação em tecnologias? Quais têm sido as dificuldades encontradas na prática? Que cursos o governo tem oferecido e qual tem sido a demanda?
Para Moran (2001), ensinar e aprender são desafios que se apresentam a nós em todas as épocas e principalmente agora em que estamos vivendo em plena era da informação onde a mídia e a internet ocupam um espaço significativo na sociedade.
Isso nos remete ao fato de que as novas tecnologias nos permitem ampliar o conceito de aula e de espaço e tempo, mas não resolvem questões de fundo. Elas por si só, não farão a transformação do mundo e da sociedade.
O papel do professor tem se modificado na medida em que os alunos têm acesso mais facilmente a uma gama de informações, mesmo que incompletas ou distorcidas, que devem ser organizadas e discutidas através de sua mediação.
A sociedade nos coloca hoje frente à realidade virtual como uma ferramenta múltipla de informação e formação. Necessita-se de profissionais entendidos em desenvolvimento humano que percebam a infinidade de processos formadores e deformadores presentes na prática social e no mundo do trabalho, que saibam seu valor enquanto profissionais conscientes do seu ofício e da importância da educação para a humanização do ser.
Ao se pensar em formação de professores há que se incentivar uma cultura constante de busca, de pesquisa, de leituras. O confronto com experiências que coloquem o professor a refletir sobre soluções para os problemas que surgem na dinâmica da sala de aula, discutindo a questão das identidades do professor no uso das tecnologias apontando caminhos na sua formação e nos desdobramentos que essas experiências possibilitam aos educandos.
4. Bibliografia
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2005.
____________. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra,1996.
____________. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
LEVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
MORAN, José Manuel. MASETTO Marcos T., BEHRNS Marilda Aparecida. Novas tecnologias e mediação pedagógica – Campinas, SP: Papirus, 2001
Tecnologias na Educação: a importância das novas mídias na formação do professor e seus desdobramentos no universo escolar publicado 2/12/2009 por Juliana Iennaco em http://www.webartigos.com
Fonte: http://www.webartigos.com/articles/29155/1/Tecnologias-na-Educacao-a-importancia-das-novas-midias-na-formacao-do-professor-e-seus-desdobramentos-no-universo-escolar/pagina1.html#ixzz100dEH4Tl

Mídias na Educação

Mídias na Educação é um programa de educação a distância, com estrutura modular, que visa proporcionar formação continuada para o uso pedagógico das diferentes tecnologias da informação e da comunicação – TV e vídeo, informática, rádio e impresso.O público-alvo prioritário são os professores da educação básica.Há três níveis de certificação, que constituem ciclos de estudo: o básico, de extensão, com 120 horas de duração; o intermediário, de aperfeiçoamento, com 180 horas; e o avançado, de especialização, com 360 horas.

O programa é desenvolvido pela Secretaria de Educação a Distância (Seed), em parceria com secretarias de educação e universidades públicas – responsáveis pela produção, oferta e certificação dos módulos e pela seleção e capacitação de tutores.Entre os objetivos do programa estão: destacar as linguagens de comunicação mais adequadas aos processos de ensino e aprendizagem; incorporar programas da Seed (TV Escola, Proinfo, Rádio Escola, Rived), das instituições de ensino superior e das secretarias estaduais e municipais de educação no projeto político-pedagógico da escola e desenvolver estratégias de autoria e de formação do leitor crítico nas diferentes mídias.

Mídia e Ação Pedagógica: possibilidades de encontro

RESUMO:

Fonte: Revista Nova Escola

Gustavo Roese Sanfelice
Professor Mestre; Pesquisador
sanfeliceg@feevale.br
Centro Universitário Feevale, RS
Denise Castilhos de Araújo
UNIrevista - Vol. 1, n° 3 : (julh
A comunicação avançou e, contemporaneamente, compreende-se que o indivíduo pode constituir-se em todas essas etapas. Assim, a educação que se baseia apenas na relação clássica professor-aluno e está centrada apenas nos livros como meio, deixa lacunas na compreensão do mundo e dos sujeitos que serão preenchidas em outro lugar que não na escola, sendo que não necessariamente a partir dos valores sociais comungados como coletivos.
A partir do final do século XX, a escola deixa de ser um lugar de aprender a ser, mas começa, ou, deveria começar a ser, um lugar de se aprender a viver no mundo e não pelo mundo. A intenção desta reflexão foi justamente propor à escola, e aos professores, a valorização da mídia na sala de aula, não só como instrumento de discussão, mas como ferramenta de construção de realidades, baseadas em conteúdos de interesse dos alunos, estimulando, desta forma, a consciência crítica, a opinião pessoal, muitas vezes renegada pela escola e pela mídia.